domingo, 23 de novembro de 2014

Análise: Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007)



Ficha Técnica:
Onde Os Fracos Não Têm Vez / No Country For Old Men (2008)
Duração: 122 minutos
Direção: Joel & Ethan Coen
Roteiro: Joel & Ethan Coen
Elenco: Josh Brolin, Kelly McDonald, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson

Poucas vezes a mente doentia de um assassino foi tão bem construída como em uma particular cena de Onde Os Fracos Não Têm Vez. Nela, Anton Chigurh (Javier Bardem) entra em uma loja de conveniência de um posto de beira de estrada e, após um diálogo, mostra uma moeda ao atendente e pede para ele escolher cara ou coroa. Sem entender, mas sentindo-se ameaçado pelo teor da conversa, o atendente diz que não está apostando nada. Chigurh então diz que o homem está apostando a sua vida e não percebeu isso. O homem, sem opção, escolhe cara e ganha. Chigurh lhe entrega a moeda e repreende o homem por querer colocá-la no bolso. Ele diz que se ele colocar lá, ela se tornará uma moeda como qualquer outra. Que é exatamente o que ela é.


Descrevendo assim, a cena pode até parecer cômica (e certamente há uma pitada de humor, principalmente com o desfecho), mas ela é extremamente efetiva no contexto do filme. Em todas as cenas que aparece - sendo que ele rouba as atenções em todas elas - Bardem profere diálogos que acabam soando engraçadas de tão malucos. Nessa cena do posto, ele tem algumas expressões muito peculiares, além do próprio tom de voz dele ser amedrontador.




Aliás, logo na primeira cena do filme, Bardem mostra o poder de Chigurh. Preso em uma delegacia, ele consegue matar o policial que está de guarda. Porém não mata de uma maneira simples, e sim enforcando-o com sua algema e com uma expressão bizarra no rosto:



A trama do filme mostra Chigurh (que inclusive não é o principal personagem do filme, mas mesmo assim é o que mais se destaca) indo atrás de uma maleta com 2 milhões de dólares encontrada por Llewelyn Moss (Josh Brolin). Este a encontrou durante uma tarde de caça - e curiosamente, no momento em que ele ia matar um animal, uma sombra se projeta no local, quase como um prelúdio do que estava por vir - em que, por  acaso, acaba se deparando com uma chacina de mexicanos no meio do deserto. Ao invés de procurar a polícia, Moss fez a infeliz escolha de ficar com dinheiro. Posteriormente, começa a ser perseguido pelos donos do dinheiro e manda sua esposa Carla Jean (Kelly McDonald) para a casa da mãe e começa a viajar com o intuito de se esconder. O xerife Ed Tom (Tommy Lee Jones) - prestes a se aposentar e com filosofias de boteco em quase todo o momento - acompanha o caso e tenta descobrir o paradeiro de Moss para protegê-lo.

Apesar de não seguir o caminho da comédia,  presente em outras obras dos Coen, Onde Os Fracos Não Têm Vez  tem uma alta dose de humor contida em seus diálogos. Nessa linha, há algumas cenas memoráveis, como uma em que dois homens conversam sobre o grau de periculosidade de Chigurh. Um deles pergunta quão perigoso ele é, e o outro responde: "Comparado com a peste bubônica?". Há também uma cena em que Moss pede para que Carla Jean diga à mãe dele que ele a ama, caso ele não volte. Ela o lembra que ela já está morta e então ele diz: "Bem, então digo eu mesmo". Há outros casos dignos de nota, mas eles são mais aproveitáveis assistindo do que lendo.

Os Coen fazem questão de deixar alguns pontos abertos no filme, como uma cena de tiroteio em que só é mostrado o resultado ou quando Chigurh é mostrado olhando para as solas do sapato, quase confirmando o ato que achamos que ele realizou na cena anterior. O filme é baseado em livro homônimo de Cormac McCarthy (autor de "A Estrada", também adaptado para o cinema), e o título já diz praticamente tudo sobre a trama, pois pra sobreviver nessa loucura, fraqueza é algo que realmente não poderá ser demonstrado.

Valem alguns destaques sobre a parte técnica do filme. O design de produção consegue nos levar com êxito ao início dos anos 80, e principalmente, a fotografia de Roger Deakins (constante colaborador dos diretores) está impecável. Seus enquadramentos estão muito precisos, e conseguem capturar cenas que facilmente poderiam ser transformadas em um quadro:






Quando Onde Os Fracos Não Têm Vez levou o Oscar de Melhor Filme em 2008, lembro de ter ficado bem chateado. Não pelo filme em si, mas sim pelo fato de ele ter batido Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007), meu favorito à época. Hoje, analisando com mais calma, vejo que os dois são excelentes e praticamente do mesmo nível. O mais justo mesmo seria uma estatueta para cada um. Desnecessário dizer que Javier Bardem levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de maneira absolutamente merecida.

Trailer:




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28 comentários:

  1. MUITO BOA ANÁLISE. FILME NOTA 10

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  2. Sem dúvida, os irmãos Coen conseguiram uma adaptação muito fiel, mas com este filme, há um paradoxo na sua construção na relação entre forma e substância que causa aparente parece uma fita muito simples para o seu enredo, o que não parece silencioso e até mesmo a sua história é um pouco confuso, mas não por isso se torna uma obra-prima que gere a linguagem cinematográfica com perfeição. Além do elenco é de luxo, Tommy Lee Jones, Javier Bardem e Kelly Macdonald, que era digno de prêmio SAG por sua grande desepemeño neste filme.

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  3. Este filme deveria receber o BOSTA do cinema, pois dá glórias a um psicopata, mostra que o criminoso dever ficar impune, elegia ao bandido e ganhar premios///

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    1. Cara, que bobagem esse comentário. Apenas mostra uma adaptação de um livro. Algo que acontece na vida real. Ou você acha que todos os bandidos são presos, todos os mocinhos ganham tudo no final sem sacrificar nada e a vida é um mar de rosas? Assim como na vida, na sétima arte nem sempre o desfecho é como a maioria de nós quer, e isso não significa que o filme transparece que o criminoso "deve" ficar impune. Com um comentário destes, o intelecto deve ser bem pequenino.

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    2. Cara, que bobagem esse comentário. Apenas mostra uma adaptação de um livro. Algo que acontece na vida real. Ou você acha que todos os bandidos são presos, todos os mocinhos ganham tudo no final sem sacrificar nada e a vida é um mar de rosas? Assim como na vida, na sétima arte nem sempre o desfecho é como a maioria de nós quer, e isso não significa que o filme transparece que o criminoso "deve" ficar impune. Com um comentário destes, o intelecto deve ser bem pequenino.

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    3. Guilherme...o colega está acostumado a ver filmes lineares, com regras únicas de gênero, e com uma batalha entre o bem e o mal (que são claramente definidos )

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  4. Uma merda esse filme ridículo, o ator tudo bem ganhar o Oscar, mas o filme devia ganhar como pior filme... Pelo menos foi um dos piores que eu já assisti.😐

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    1. Cita um filme que você gostou...

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    2. baby's, assisti o filme ontem! achei maravilhoso... tanto as sensações que ele provoca, como a forma narrativa e a troca de "efeitos" cinematográficos.

      Dá uma lida nessa análise, pra ver se você assisti o filme ou pelo menos lembra dele de uma outra forma...

      http://www.contracampo.com.br/90/critnocountry.htm

      "Ao saber o que é o filme mesmo antes de ver o filme, sua rede neural fará previamente uma série de associações que possibilitam que a narrativa visual se relacione de maneira mais intensa em sua mente. O filme pede a parceria do espectador, dando-lhe os sinais necessários para o diálogo. São as muitas maneiras de ver um filme, cristalizadas em torno de códigos próprios." em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/01/14/como-ver-um-filme-genero-cinematografico/

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  5. Gosto é gosto e o seu, meu amigo, não deve ser dos melhores. Abraços.

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    1. hahahaha.... se gosto é gosto (pressuposto pra não se discutir a estética de um filme, ou o seu conteúdo)... por que o o dele, "não deve ser dos melhores"

      Partindo da sua premissa, "gosto é gosto", portando cada um tem o seu e devemos evitar o debate pois ele não chegara, neste caso, a lugar nenhum..... o seu é igual ao dele, e o dele igual ao seu.

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    2. E o seu igual o dos dois, o meu igual dos três e foda-se o mundo.

      Alá!
      Buuuuuuuuum

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  6. Quem não gostou desse filme é porque não entendeu. Simples assim. A maioria das pessoas só assistem filmes de super herói, aí pegam um filme desses que exige um raciocínio mais complexo e ficam boiando. O pior é que ainda saem falando mal, como se entendessem algo de cinema.

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  7. Desculpem mas este filme foi um dos piores que eu já assiti. Gosto, cada um tem o seu e respeito opiniões diferentes da minha, apenas gostaria de dar minha opinião.

    Entendo toda a questão filosófica por trás, mostrando uma história onde realmente ''os fracos não tem vez'' e não me incomoda a questão de o assassino não ter sido pego, afinal, isso que muitas vezes acontece. Mas ao assistir um filme criamos expectativa de ser surpreendidos, de as histórias dentro do filme se relacionarem mas isto não acontece nesse filme. O que encontramos são diálogos soltos sem nenhuma relação entre si. Além de diversos personagens colocados como importantes mas que, não tinham relação com nada. Sinceramente decepcionante.

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    1. "Entendo toda a questão filosófica por trás" não...não entende...por isso achou o filme "uma bosta"

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    2. "as histórias dentro do filme se relacionarem mas isto não acontece nesse filme."

      SIM, pois essa foi a intenção dos diretores, é proposital. Ele usa desse recurso o filme INTEIRO...e no final ele de dá um super tapa pra mostrar QUE É REALMENTE ISSO QUE ELE QUER PASSAR.

      "Não sabemos de fato a motivação de Chigurh. Não sabemos de fato qual é o plano de Moss. Não sabemos quem, afinal, é Carson Wells e porque ele promete tanto e nada consegue cumprir. Não conhecemos muito da lógica do bandido que fica em um escritório e é executado por Chigurh. E se somos retirados do discurso pelo corte seco que encerra o filme é para que nada mais seja dito mesmo. Fica claro ali que a mecânica do filme opera -"

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  8. hahahah.... porque toda história tem um começo , um meio e um fim né anônimo ? porque a vida é um maniqueísmo, onde o mau é bem definido e o bem também ?!

    Não que ganhar o Oscar signifique muita coisa...mas " pois dá glórias a um psicopata, mostra que o criminoso dever ficar impune"

    Onde o filme mostra isso ? alias..porque um filme tem que ter alguma lição de moral ?

    E quem dá glórias ao psicopata, não é o filme, é a atuação do ator, que roubou a cena toda, inclusive a sua percepção de quem seria o ator principal...

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  9. "elegia ao bandido e ganhar premios"
    Se gosto é gosto, cada um tem o seu... por que se incomodar com a premiação ?

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. hahahah.... porque toda história tem um começo , um meio e um fim né anônimo ? porque a vida é um maniqueísmo, onde o mau é bem definido e o bem também ?!

    Não que ganhar o Oscar signifique muita coisa...mas " pois dá glórias a um psicopata, mostra que o criminoso dever ficar impune"

    Onde o filme mostra isso ? alias..porque um filme tem que ter alguma lição de moral ?

    E quem dá glórias ao psicopata, não é o filme, é a atuação do ator, que roubou a cena toda, inclusive a sua percepção de quem seria o ator principal...

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  12. mas vou tentar ser um pouco menos arrogante, colega anônimo, pois sou um sonhador e acredito que vc talvez leia essa análise que está maravilhosa

    http://www.contracampo.com.br/90/critnocountry.htm

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  13. Esse filme me faz lembrar a historinha infantil em que o Rei está pelado e todos os imbecis ficam falando que sua roupa é maravilhosa por acharem que eles próprios são incapazes de ver sua beleza. Então a roupa do Rei é maravilhosa por unanimidade apesar do rei estar nú. Me engana que eu gosto. O filme é uma merda!!

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  14. Eu achei o filme GENIAL!
    Ele precisa muito mais do que conexões simples para ser compreendido. É uma atmosfera que precisa ser absorvida para que se possa ter uma dimensão do teor do filme.
    Não sou crítico, mas compreendi o clima seco e tenso do filme. O filme mal tem trilha de superprodução. É direto! Como os tiros da arma do Chigurh (que não sei nominar).
    Na vida também conhecemos as pessoas sem saber bem a sua natureza ou seus planos. O filme simplesmente dá esse tapa animal na nossa cara e nos tira do conforto de ter tudo mastigado. De ter que entender o passado de um psicopata para entender sua motivação. A vida não é assim e o filme passa essa realidade de forma seca e dura como cenário em que passa. Um exemplo é o dialogo MAGNÍFICO no posto, onde o atendente puxa assunto com um estranho (Chigurh). Ele não sabe quem é aquela pessoa, portanto ali é ilustrado que a cada vez que flertamos com o desconhecido a nossa vida é posta em jogo. Nossa vida vira uma aposta e por isso quem decide é a sorte e por isso Chigurh lança a moeda.
    O Filme é tão genial que tu não precisa entender as motivações e sim as representações de cada personagem. O mais arrebatador, sem dúvidas, e Chigurh, e até nisto o filme é diferenciado, pois Chigurh não é o principal personagem do filme, mas é aquele que tem que ser "desvendado" para que a admiração do espectador não acabe somente no personagem, mas tome proporção e abrace o filme como um todo.

    Enfim.
    Pra mim, um dos melhores filmes contemporâneos por toda essa conjuntura sensorial que ele exige.

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